Portugal atravessa uma das crises habitacionais mais graves da sua história recente. O que durante décadas foi tido como garantido — ter uma casa — tornou-se, para muitos portugueses, uma miragem cada vez mais difícil de alcançar. Os preços disparam, a oferta não aparece, e as soluções chegam sempre a conta-gotas.
Os números que falam por si
O retrato é preocupante. Lisboa regista hoje rendas medianas de 16,00 €/m², as mais elevadas do país, e no primeiro trimestre de 2025 verificou-se um aumento das rendas em 23 dos 24 municípios com mais de 100 mil habitantes. No que toca à construção nova, os dados são igualmente alarmantes: em 2021 foram concluídas apenas 19.616 habitações em obras de construção nova — menos 27% do que em 2011 e menos 83% do que em 2001. Estamos, literalmente, a construir oito vezes menos do que construíamos há vinte anos.
A nível europeu, a situação não é mais animadora. O relatório Habitação na Europa — Edição 2025, do Eurostat, revela que entre 2010 e 2024 os preços de produção na construção de casas subiram 56% na União Europeia e quase 47% em Portugal. O investimento em habitação ficou nos 4,3% do PIB português em 2024, abaixo da média europeia.
As vozes de quem está no terreno
As declarações de quem conhece o mercado por dentro não deixam margem para dúvidas.
Miguel Pinto Luz, Ministro das Infraestruturas e da Habitação, afirmou no Salão Imobiliário de Portugal (SIL 2024): “Estamos a construir muito pouco comparando com há 20 anos. É preciso reabilitar e construir mais.” (Fonte: Idealista/news, maio de 2024)
Manuel Castro Almeida, Ministro da Economia e da Coesão Territorial, foi ainda mais incisivo numa audição parlamentar em outubro de 2025: “Muitos edifícios estão a ter dificuldades em ir para o terreno por carência de mão de obra. A minha convicção é que há mesmo falta de mão de obra.” (Fonte: Idealista/news, outubro de 2025)
A Bloomberg noticiou em 2024 que as rendas em Lisboa subiram 14,5% num único ano, tornando a capital “inacessível para muitos cidadãos locais”. Uma análise do Público é ainda mais direta ao concluir que “o preço do metro quadrado em Lisboa situa-se em média em 2.740€, enquanto o valor de construção fixado por portaria é de apenas 532€/m² — uma especulação imobiliária gritante.” (Fonte: Público, agosto de 2024)
Quais são as causas para a crise da habitação?
A crise não tem uma causa única. É um nó de vários problemas estruturais que se alimentam mutuamente:
1. Construção insuficiente — Décadas de desinvestimento em habitação nova criaram um défice de oferta que a procura actual não consegue colmatar.
2. Especulação imobiliária — A entrada massiva de capital estrangeiro e o fenómeno do alojamento local desviaram imóveis do mercado de arrendamento tradicional, encolhendo a oferta e fazendo subir os preços.
3. Custos de construção elevados — Os materiais e a mão de obra ficaram muito mais caros na última década, desincentivando os promotores a edificar nas faixas de preço mais acessíveis.
4. Burocracia e licenciamentos morosos — O tempo médio de licenciamento de obras em Portugal continua a ser dos mais longos da Europa, atrasando projectos por anos a fio.
5. Gestão pouco eficaz do património público — Terrenos e imóveis do Estado que poderiam servir para habitação acessível têm sido geridos com ineficiência e atrasos sistemáticos.
6. Falta de mão de obra qualificada — Um problema que abordaremos noutro artigo, mas que é hoje reconhecido pelo próprio Governo como uma das razões directas para a escassez de habitação.
O que está a ser proposto?
O Governo lançou a estratégia “Construir Portugal”, que contempla um conjunto de medidas, entre as quais:
- Redução de impostos sobre a construção de habitação nova;
- Disponibilização de mais terrenos rústicos para o desenvolvimento de habitação acessível;
- Um programa de “renda moderada” com benefícios fiscais para senhorios e inquilinos com rendas entre os 400€ e os 2.300€;
- Criação de parcerias público-privadas para habitação a preços controlados;
- A chamada “Via Verde” para a contratação de trabalhadores estrangeiros na construção civil.
Já a nível europeu, a Comissão Europeia apresentou em Dezembro de 2025 um novo plano de emergência para a habitação, reconhecendo que a escassez de casas públicas e privadas é “a principal raiz do problema” em toda a União.
O que ainda falta fazer?
A generalidade dos analistas e dos especialistas do sector é unânime: as medidas existentes ficam aquém do necessário para resolver um problema estrutural com décadas de história. Construir menos de 20.000 casas por ano num país que já produziu 100.000 significa que qualquer solução levará anos a fazer-se sentir.
O que é certo é que a habitação em Portugal deixou de ser um assunto de política social para passar a ser o tema central da economia e da coesão social do país. Sem acesso a uma casa a preço comportável, perdemos jovens, afastamos talento e aprofundamos desigualdades que cada vez mais marcam o nosso quotidiano.